os 13 anos, o goiano Gabriel Douglas tem um semblante sério e a fala tranquila de quem sabe qual caminho seguir. Fã do bicampeão olímpico nos 5.000 e 10.000m Mo Farah, ele dá mostras de, quem sabe, atingir o sonho de disputar uma Olimpíada. Nesta quinta ele conquistou o ouro nos 1.000m dos Jogos Escolares de Curitiba, controlando bem os adversários que se aproximavam nos metros finais. A vitória que lhe rendeu a classificação para o Sul-americano é fruto de uma rotina na qual leva quatro horas para ir e voltar dos treinos, quando precisa driblar os perigos da criminalidade.
Gabriel mora no Recanto do Sol, periferia da cidade de Anápolis, com cerca de 360 mil habitantes. O nome pomposo tenta mas não consegue esconder a realidade. O garoto mora perto de uma boca de fumo e já teve chances de desviar da rota que o leva para o projeto Zatopek, na Universidade Evangélica. O nome é uma homenagem ao tcheco, único campeão olímpico em uma mesma edição dos 5.000m, 10.000m e na maratona. O lema da "locomotiva humana" era correr contra o relógio, não contra o adversário. E o relógio marca duas horas para ir e duas para voltar dentro do ônibus da prefeitura que apanha alguns dos 70 alunos.
- Tem uma boca de fumo e usuários de droga perto da minha casa. Já me chamaram, mas o atletismo fala mais alto - disse Gabriel, que recebeu a medalha da campeã mundial de salto com vara Fabiana Murer.
Professor do projeto, Gislei Pimentel conta que além do ônibus, a prefeitura banca os professores e o lanche. A ajuda necessária agora é para pagar o transporte para as competições fora de Goiás. Enquanto isso, Gabriel corre e sonha. Já é notícia em Anápolis. Quer ser no mundo.
- Na hora da vitória pensei na família, na professora e na minha cidade. O pessoal parou para receber notícias de mim. Fiquei emocionado. Até agora não acredito que ganhei. Vou dar o meu máximo. Quem sabe dar uma medalha de ouro para o Brasil no Sul-americano e um dia chegar numa Olimpíada.