Foto: Royce Gracie é anunciado vencedor em luta pelo UFC 1 — Foto: Susumu Nagao É possível imaginar um faixa preta que é exclusivamente um atleta, que apenas treinou a luta esportiva e que nunca praticou defesa pessoal? Caso ele seja surpreendido e se encontre numa situação de risco, como que esse indivíduo vai encarar essa situação? Qual será o objetivo dele ali? Segundo Royce Gracie, a mentalidade esportiva de ganhar pontos não vai ser efetiva diante das variáveis da rua.
Para o primeiro campeão do UFC e mestre de jiu-jítsu, as academias estariam valorizando demais a luta esportiva e negligenciando a raiz de todas as artes marciais, que é a defesa pessoal.
- Ninguém entra na arte marcial porque quer competir. Ninguém bota um filho para entrar na arte marcial porque ele quer que o filho ganhe um campeonato. Os pais querem que a criança aprenda a se defender. Uma senhora, uma mulher, vai entrar na arte marcial porque ela quer aprender a se defender - diz Royce, que responsabiliza as academias nessa "formação deficiente" dos lutadores esportivos.
- As academias esqueceram a essência da arte marcial. A academia é que influencia mais esse negócio de competição. Algumas pessoas dizem: "Eu comecei a treinar por causa de você, porque eu vi você ganhar o UFC", e isso não é verdade, não foi por minha causa. Poderia ser a cara de qualquer um. Poderia ter sido qualquer outra pessoa. A técnica que eu mostrei foi o que atraiu a pessoa.
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Público comparece ao Campeonato Amazonense de jiu-jítsu: lutas decididas por pontos e vantagens atualmente são mais comuns do que finalizações — Foto: Mauro Neto/Faar
Flávio Canto, bronze no judô, nas Olimpíadas de Atenas (2004) e mestre de jiu-jítsu, também enxerga mudanças nítidas no jiu-jítsu esportivo em relação à arte praticada por Royce.
- Eu acho que o jiu-jítsu competitivo, hoje, já é muito distante do jiu-jítsu talvez mais raiz do Hélio Gracie, Royce, dessas primeiras gerações até o Royce e o Rickson. Porque acabou ficando muito competitivo e tendo regras, que acabaram caracterizando ele como um esporte que se vai buscar ponto, e muitas vezes perde-se um pouco aquela essência de defesa pessoal, que está por trás da construção da modalidade.
Royce Gracie não nega que o jiu-jítsu cresceria ainda mais se entrasse no programa olímpico, mas alerta que as academias continuariam negligenciando a essência da arte.
- Como esporte olímpico, ficaria bem maior, mas perderia a essência da defesa pessoal, que é a arte marcial. Por exemplo, o karatê nas últimas Olimpíadas, um atleta nocauteou o outro, e o que foi nocauteado ganhou. O que nocauteou foi desclassificado por excesso de força, de violência. Como que pode isso, cara? O karatê foi feito para isso, para nocautear a pessoa. E os caras: "Não, você tem que marcar ponto". Estou falando não só de jiu-jitsu, não. Estou falando das artes marciais em geral.
Algumas artes marciais tiveram que migrar para as Olimpíadas para continuar atraindo adeptos e transformando vidas. Por se tornar esporte olímpico, o esporte ganha mais visibilidade, arrecada mais dinheiro para a confederação e, como consequência, há mais chance de um atleta conseguir patrocinador. A defesa pessoal em si dificilmente é capitalizada pelo lutador. Agora, quando se torna uma luta esportiva em ambiente olímpico, ganha-se mais uma profissão no mercado.