Foto: FolhaPress A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reduziu as referências às apostas esportivas, conhecidas como bets, e diminuiu as críticas aos clubes de futebol durante a disputa do segundo turno das eleições presidenciais. A mudança ocorreu após o primeiro turno terminar com Flávio Bolsonaro (PL) à frente, com uma vantagem de aproximadamente 2 milhões de votos, segundo o texto original.
Um levantamento baseado nas transcrições de 46 vídeos publicados no canal de Lula no YouTube até 15 de outubro identificou uma queda na frequência do tema. A média de menções à palavra “bets” passou de 11 por vídeo no primeiro turno para quatro no segundo.
Entre 1º de setembro e 4 de outubro, período que antecedeu a primeira votação, o assunto apareceu em todos os vídeos analisados. Em setembro, as apostas chegaram a ocupar posição de destaque nos discursos presidenciais, especialmente após Lula anunciar que o governo estudava medidas contra a atividade, em 1º de setembro, e assinar uma medida provisória relacionada ao tema no dia 25 daquele mês.
Segundo o levantamento citado, “bets” foi a oitava palavra mais utilizada por Lula em setembro, considerando os critérios de análise apresentados na reportagem, à frente de termos relacionados à educação.
A primeira-dama Janja da Silva também demonstrou frustração com o resultado eleitoral da iniciativa. De acordo com informações atribuídas ao SBT News e à Folha de S.Paulo, ela esperava que a medida tivesse maior impacto nas urnas. Apesar disso, pesquisas mencionadas no texto indicaram que a decisão era conhecida por parte expressiva da população e tinha aprovação entre os entrevistados que sabiam da medida.
A cientista política Carolina de Paula, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), explicou que as campanhas ajustam seus temas conforme pesquisas de opinião, avaliações qualitativas e a repercussão nas redes sociais.
“Essas métricas ajudam, assim como a cobertura da imprensa, que também é um parâmetro para a campanha”, afirmou.
Para a pesquisadora, a redução das referências a determinado assunto não significa necessariamente fracasso. “O tema vai perdendo forças e se esgota. As pessoas também deixam de procurar nas redes sociais”, explicou.
Além das apostas, Lula também diminuiu as críticas aos clubes de futebol, que reagiram às declarações presidenciais em defesa das receitas provenientes das casas de apostas. O tema ganhou força no início de outubro, quando o presidente questionou a dependência financeira das equipes em relação a esse mercado e defendeu a adoção de modelos empresariais, como as Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs).
Em 8 de outubro, ao voltar a abordar a transformação dos clubes em empresas, Lula questionou: “Vocês estão lembrados que há três décadas todo mundo só falava em virar empresa. Agora pode virar empresa, por que não estão virando?”
Em outra declaração, o presidente relacionou os títulos conquistados por equipes brasileiras antes da expansão das apostas on-line à discussão sobre a dependência desse tipo de receita. As falas provocaram reações no meio esportivo, incluindo uma manifestação do presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, conhecido como Bap, que afirmou não ter nada a aprender com Lula, em entrevista ao Poder360.
As críticas também repercutiram entre parte do público. Em 11 de outubro, torcedores do Flamengo entoaram cânticos contra o presidente após a vitória por 1 a 0 sobre o Fluminense.
Enquanto as referências às apostas e ao futebol perderam espaço, a campanha petista passou a dar mais destaque a propostas como o fim da escala de trabalho 6 por 1 e medidas de renegociação de dívidas para microempreendedores, além de intensificar as críticas a Flávio Bolsonaro.
Mesmo com a redução das menções nos materiais de campanha, Lula continuou abordando as apostas em atos políticos. Em um encontro com apoiadores em Natal, declarou: “Essa é a passeata daqueles que não querem mais bet roubando o povo pobre desse país.”
A disputa sobre a regulamentação das apostas on-line permaneceu no centro do debate político, envolvendo decisões tomadas por diferentes governos, regras aprovadas no Congresso e divergências sobre os efeitos econômicos e sociais da atividade.